SINOPSE: "No seio de uma aldeia
beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que
ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre
chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se
faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a
levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu.
Perante
a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão
mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos
erros que foi obrigada a cometer por amor às
filhas. O passado é
evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para
ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria
de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e
protector daquelas três figuras solitárias…"
A opinião da Margarida
Acabei de ler o livro e estou absolutamente encantada!
Nunca
pensei dar a minha opinião sobre um livro publicamente. Não sou crítica
literária, sou apenas uma leitora que gosta de bons livros. Por norma
apenas partilho a minha opinião com as pessoas mais chegadas e a quem
gosto de “tentar” com as minhas leituras, para depois partilharmos
pensamentos, sensações e até talvez criticas, mas nunca me atrevi a
fazê-lo publicamente.
Este caso foi diferente! As emoções ao ler o livro foram tão intensas que senti que tinha de dizer alguma coisa.
Gosto
muito de autores portugueses! Gosto de “estórias” sobre este nosso
cantinho e tenho sempre curiosidade em conhecer os nossos novos autores.
Ao
ler a sinopse fiquei conquistada. Talvez pelo facto de referir uma
aldeia beirã e as minhas raízes virem de uma! Ou pelo tema ou talvez
apenas curiosidade por ser uma autora tão jovem e portuguesa. Não sei,
conquistou-me e não descansei enquanto não consegui o livro, o que
aconteceu exactamente através da autora, com quem troquei alguns e-mail e
cuja personalidade naquelas poucas palavras me fascinou. E não me
enganei! Ela é fascinante.
Assim que comecei a ler o livro,
confirmou-se uma boa escolha! É um livro com bastante ritmo, que nos
prende desde a primeira frase e que se torna difícil de pousar. Uma
história arrebatadora!
Os temas que escolheu são ambiciosos,
dolorosos e difíceis, infelizmente reais mas a autora não teve medo de
lhes pegar e trabalhou-os com uma maturidade que nos espanta numa pessoa
tão jovem. Mostrou um conhecimento profundo do Mal e da alma humana e
do Mundo, que gente bastante mais velha não possui.
A escrita é
acessível e fluída, arrebatadora mas também profunda e nota-se que foi
crescendo ao longo do livro. Gostei e tive dificuldades em “livrar-me”
dele depois de lido, é tão intenso que permanece em nós mesmo depois de
terminado, e talvez por isso sentisse necessidade de falar sobre ele,
tinha de o “expulsar”.
No final da leitura fica a sensação que somos
amigos, vizinhos ou simples conhecidos das personagens e que gostaríamos
de continuar com elas, é difícil despedirmo-nos…
São personagens
fortes com uma grande carga psicológica intensa, que ao longo do livro
nos emocionam, nos revoltam, que nos fazem ter vontade de interferir,
que nos fazem “torcer” por elas. Os “recadinhos” de Olímpia a ela
própria são enternecedores, e fazem-nos pensar como deve ser
desesperante não conseguir lembrar. Luz e Maria são as filhas que todos
gostaríamos de ter, embora ache que pelo menos a Luz podia ter tido um
papel mais relevante. A força e a coragem de Letícia impõem-se no
decurso da trama e emocionam-nos ainda que por vezes nos revolte a falta
de reacção perante o que pensam dela e não reaja perante tanta
injustiça, mas é um romance e não a vida real.
As personagens
masculinas principais, Sebastião e Gabriel, embora de gerações
diferentes, são movidas pelos mesmos sentimentos: amizade, amor, e acima
de tudo a necessidade de proteger as mulheres que de uma forma ou outra
fazem e fizeram sempre parte da sua vida, são personagens muito ricas.
Acho que o Sebastião podia ter sido um pouco mais explorado e ter tido
um papel mais activo.
Não vou obviamente contar a história. Essa terá
de ser uma experiência pessoal, mas digo: vale a pena. É uma história
sobre o nosso tempo, mas é também intemporal. É uma história sobre
sentimentos, emoções, lutas interiores, mas é também uma história sobre o
nosso Portugal interior com grande riqueza de pormenores, com cor, com
cheiros…
A Célia tem talento, na minha humilde opinião muito talento!
Tenho a certeza que virá a ser um grande nome no panorama literário
português. Leiam este “Demência” e compreenderão o que digo. Eu já o fiz
e já espero ansiosamente o próximo livro.
Obrigada Célia. Continue sempre e sempre igual a si própria.
Parabéns.